Existe hora certa para dizer adeus?

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Aconteceu. Neste final de semana me despedi da minha tia. Alguém que eu nem imaginaria perder tão cedo. Estava ligada no automático por ter aquele conforto de saber que ela estava bem pertinho de casa. Mas agora se foi.

Sabe quando você não acredita? Quando parece que tudo não passou de um pesado? O que eu mais queria agora era acordar e saber que ainda teríamos esperança. Mas ela também se foi junto com a minha tia.

Ser forte

Estava tentando ser forte a maior parte do tempo até entrar na casa dela e encontrar todos por lá. Estavam tristes e chorando.

Ela nunca mais estaria por lá. Eu nunca mais a encontraria ali dentro. – Era o que eu pensava.

Quando meu primo começou a chorar contando como tinham passado aquela noite no hospital, todos nós choramos juntos. Todos sabíamos o quanto ela estava sofrendo e o quanto se despedir foi o melhor para ela.

Que seja feito o melhor

Aconteceu tudo tão rápido. As dores de cabeça da minha tia evoluíram muito a ponto dela frequentar mais vezes o médico. Até que acharam uma doença em plena fase de desenvolvimento.

Pelos médicos, nada seria feito para impedir. Pelos filhos, qualquer esperança, por mínima que fosse, seria válida.

Depois da cirurgia, ela logo voltou para casa. Este seria o nosso suspiro de esperança. O nosso “ufa, agora está tudo bem”. Mas não, tudo piorou ainda mais.

Era um misto de esperança e dúvida. Isso porque meus pais não costumam falar tudo o que está acontecendo. E eu não os culpo, sabe? Quem quer relembrar a todo momento que aquela talvez seja a última noite dela? Que aquela visita ao hospital talvez fosse uma despedida?

Esquecer sem querer

Eu lembro da vez em que fui visitá-la. Ela ainda estava acordada e, como era previsto, não me reconheceu logo de cara. Mas eu sabia muito bem quem ela era e que o significava em minha vida. Então, isso não me importou muito.

Mas eu sabia que se esquecer significava muito pra ela. Perder memórias nunca é bom, principalmente da família. E eu sabia que essa seria mais uma sequela sem volta.

Será?

Atualmente os médicos não escondem nada dos parentes e naquela sexta-feira já tinham dado o ultimato. Aquela poderia ser a última noite dela. E foi. Todo o cérebro da minha tia seria comprimido e simplesmente desligado.

Ela já estava vivendo em partes, dormindo a semana inteira, no que poderíamos chamar de um pré coma. Mas também estava passando mal e agitada. Aquela noite seria a última. Ela não sofreria mais.

Depois das 4 da manhã

Recebemos a ligação por volta das 4 horas da manhã. A partir daquele momento não teríamos mais ela conosco. A frase “ela descansou” ecoou por vários minutos dentro da minha cabeça.

Eu sabia o quanto ela precisava ir. Eu e todos nós sabíamos o quanto ela estava sofrendo. O quanto aquela doença tinha transformado para pior os dias dela. E com eles, os nossos.

O que mais queríamos era que fosse feito o melhor para ela. Quando algo tão ruim acontece assim, o melhor seria acabar com essa dor logo. Mesmo que os nossos corações quisessem ela conosco, também a queriam forte e saudável. Independente como sempre fora. Mas sabíamos que isso não teria mais chance de acontecer.

Então, ela ter descansado foi o melhor, por mais que às vezes tenhamos pensamentos egoístas e de como seria melhor saber que ela está entre nós. Mas, em casos assim, temos que nos deixar de lado e pensar no que seria melhor para o outro. Foi melhor para ela ter dito adeus.

Saudade

Agora, o que nos restou foram as risadas, os apelidos, as viagens para o sítio do vovô e, claro, um amor enorme que não acaba com a partida dela. Lembram do texto que fiz aqui sobre entender o sentido da nossa vida? Acredito que minha tia tinha uma missão muito linda e que completou sabiamente. Deixou para trás uma família linda e que a ama de forma incondicional. Isso já é uma grande vitória na vida.

Agora – o que ela nos deixou também – foi uma saudade sem igual que vai dominar nossos dias até que tudo fique mais tranquilo. Isso pode ou demorar anos ou nunca acontecer, mas, o que tenho certeza, é que no fundo todos nós sabemos que foi o melhor.

Tia, queria ter descoberto isso tudo antes. Queria que eu pudesse, de alguma forma, ajudar e impedir que chegasse a esse ponto sem volta. Queria, mas não posso mais. O que me resta agora é levar tudo isso como uma lição de vida, para nunca deixar de cuidar da saúde e sempre correr atrás de qualquer coisa que sentir. Afinal, se tivéssemos procurado sobre isso antes, talvez ainda estivesse conosco agora.
Sinto muito.

-Aninha Carvalho

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